quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Airá - Os ventos de Savé.



Airá é um Deus relacionado a família do raio mas também é relacionado ao vento, seu nome pode ser traduzido como Redemoinho, vale lembrar que o redemoinho é o fenômeno que mais se assemelha a um furacão em território Africano. Airá então deve ser louvado como a divindade que rege o encontro dos ventos.

Seu culto é proveniente da região de Savé e Savalu que faz parte do território Jejê.

Mais seu culto não foi reconhecido em suas terras, mais tarde Xangô Sr, Rei de Oyo grande conquistador de terras ofereceu reconhecimento de seu culto em troca ele daria a chave do conhecimento do segredo de Savé, mas Xangô queria que ele fosse seu criado o mesmo não quis ser submisso a xangô, dai veio a sua iria porte sido enganado, Xangô procurou um adivinho (Ifá), o mesmo disse que ele teria que trazer o grande senhor funfun (Oxalá) só ele poderia acalma-lo, e assim foi feito. Airá não poderia mais voltar para sua terra natal, por ter traído todos da sua cidade revelando o segredo(o culto a nanã, a origem da criação humana) de Savé para os Iorubás, onde hoje o culto a nanã é mais forte nas terras Iorubá. Oxalá levou para suas terras e se fundiu seu culto.

Por esse atrito com Xangô, não se deve coloca-los juntos, nem podendo Airá ser posto em cima do pilão de duas bocas já que o pilão de duas bocas pertence a Xangô o que acarretaria a sua ira.

Airá não usa coroa, mas um eketé branco ou de palha da costa com búzios e guizos.

Ao contrário de Xangô, Airá não é o Orixá rei nem possui o carácter punitivo e colérico. Esta característica mais amena de Airá, pode ser evidenciada em uma de suas cantigas que diz:

"A chuva de Airá apenas limpa e faz barulho, como um tambor".

O culto de Airá foi instalado no Brasil na Barroquinha, Pela Iya Akala, Sacerdotisa, Da Época de Iya Adeta, Cujo o templo foi dedicado a ele, Airá Intile.

Com festas e Casa Separadas, o culto dos Orixás ioruba nação Ketú se estabeleceu em cima do culto a Xango, pela presença das primeiras sacerdotisas fu
ndadoras e organizadoras das primeiras comunidades, daí Airá ser cultuado na Família de Xangô.

Sàngó Kan! Aiyrá Kan!
Xangô é único! Airá é Único!


Igi Ose - Baobá


A arvore Ose (Baobá) É também sua Representação e seu Arbusto de Culto, pois a Grandiosidade do Baobá  sua Altura, sua magnitude, a idade de até 6000 Anos que pode Viver, sua solidez faz dela a Árvore escolhida por Oloke para seu Culto.

No Brasil , o Baobá, foi substituído pela castanheira do Pará, substituição feita pelo povo jeje-nagô que aqui chegaram, todavia, depois de alguns anos, o Baobá conseguiu se estabelecer em Solo Brasileiro logo pelo fato de a Castanha do Pará ser titulada como a substituta, hoje ambas são consideradas sagradas.

Na Africa, é dedicado a todos os Orixás, sendo que as folhas são utilizadas na iniciação e para proteção dos iniciados, dai conhecido como Igbéèlùjù (Cita Verger).

Em algumas regiões, costuma-se sepultar os cadáveres embalsamados de ancestrais (Artistas, músicos e poetas) no interior dos troncos, onde transformam-se, segundo a crença local, em Múmias.

No Brasil, a Castanheira do Pará, classificada como Bertholletia Nobillis Miers, ocorre especialmente entre norte e nordeste do pais, estando sob o ritual de Osala e Sango, sendo muito comum encontrar oferendas para estes na copa da Arvore, também é enfeitado com grandes laços de Tecido distinguindo-o como sagrada. 




Baobá Africano: Adansonia Digitata L., 
Família: Bombacaceae
Nomes Populares: Baobá, Arvore de mil anos, Bondo, Imbondeiro, Adansônia, Calabaceira.

No Rio de Janeiro encontramos no Jardim Botânico, na Lagoa Rodrigo de Freitas e no Campo de Santana.


Baobá Brasileiro: Bertholletia Excelsa H.B.K. 
Sinonímia: Bertholletia Nobillis Miers
Família Lecythidaceae
Nomes Populares: Castanheira do Pará, Castanha do Pará, Castanha do Brasil

Cosmogonia Iorubá

Este escrito, assim como alguns que se seguirão a ele, visa levar ao conhecimento dos leitores o “corpo religioso” em que se fundamenta o candomblé: sua cosmogonia, dogmas, liturgia e rituais. O artigo de hoje fala sobre cosmogonia, que é a explicação que as religiões, culturas e até mesmo a ciência – teoria do “Big Bang” – dão para esclarecer a origem do universo. A intenção é diminuir os conceitos preconcebidos de maneira errada que alguns têm sobre essa religião iniciatória. Ela é misteriosa, sim! Não porque a base em que se sustenta não possa ser transmitida, mas pelo fato de seus adeptos serem iniciados e por isto mesmo vivenciarem uma experiência com o sagrado que é individual, portanto, difícil, ou melhor, impossível de ser transmitida. Aqui será relatada uma parte da cosmogonia do candomblé, que conta a seguinte história mítica para demonstrar como a Terra foi criada:
“No Orum, Oduduwa unida a Oxalá formavam um só orixá – Obatalá –, símbolo do casal mítico primordial, propulsor da ‘Criação’, existente nas cosmogonias de diferentes culturas. No princípio de tudo, quando não havia separação entre o que está em cima e o que está embaixo, Oxalá e Oduduwa viviam juntos dentro da Cabaça-da-Existência. Eles viviam muito apertados naquele local, tendo que dormir um em cima do outro. O que determinava quem dormiria por cima ou por baixo eram os sete anéis que eles possuíam. Oxalá sempre conseguia colocar quatro anéis e por isto tinha o privilégio de ficar por cima. Oduduwa se conformou com aquela situação por muito tempo, mas um dia ela disse que usaria os quatro anéis. Oxalá não aceitou e a luta entre o casal/irmão foi tão grande que a ‘Cabaça’ se rompeu em duas metades, ficando Oxalá na parte superior e Oduduwa na parte inferior. Estava rompida a união do casal primordial. O Orum (Céu) já não podia mais ser a ‘residência’ dos dois orixás. Outro local precisava ser criado. Olorum resolveu, assim, criar o Aiye (Terra).
O oráculo de Ifá foi consultado e determinou que a missão de criar a Terra deveria ser realizada por Oxalá. Para que a missão tivesse êxito, Exu precisaria receber sua oferenda. A divindade suprema, Olorum, entregou a Oxalá a Cabaça-da-Existência, contendo nela o germe de tudo que há no mundo. Devido à grande ansiedade de realizar a tarefa, Oxalá se esqueceu de dar oferenda a Exu. Assim, Ele não pôde contar com o apoio do orixá símbolo da existência diferenciada, o princípio dinâmico de propulsão, mobilização, transformação e crescimento que conduz à criação. Oxalá se esqueceu da importância de Exu Yangí, a primeira matéria criada, formada de água e terra; a primeira matéria que daria forma a todas as outras subsequentes, inclusive daria forma à humanidade.
“A ansiedade de Oxalá lhe causou grandes problemas. Olorum tinha dito a Oxalá que durante sua missão ele estava proibido de ingerir vinho-de-palma: bebida que possui alto teor alcoólico. Aconteceu que a ansiedade sentida por Oxalá fez com que sua necessidade de beber água aumentasse. Em pouco tempo de viagem, todo o suprimento de água que Oxalá tinha levado foi logo consumido. Sentindo uma sede insuportável, Oxalá se viu forçado a ingerir a seiva do tronco do dendezeiro que Exu, cumprindo sua tarefa de fazer com que não fossem negligenciadas as ordens de Ifá, tinha colocado em seu caminho. Oxalá tomou uma bebedeira e caiu no sono. Sua esposa/irmã, Oduduwa, ao vê-lo naquele sono profundo, recolheu a Cabaça-da-Existência e foi devolvê-la a Olorum, que a passou, então, para Oduduwa – contraparte feminina de Oxalá – a importante missão de criar a Terra.”
A história mítica acima descrita é muito maior e mais profunda. Nela os adeptos do candomblé encontram importantes lições que os ajudam a compreender o mundo. Uma delas é o fato de que todas as tarefas precisam ser executadas com concentração, sem ansiedade, e com a cabeça livre de qualquer substância entorpecente, inclusive pensamentos que adormecem a mente. Outra lição é que fazer oferendas, dar presentes, é um ato mágico que ajuda na obtenção de simpatizantes para nossas causas.

Obatalá - Oxaguiã




Oxaguiã é um orixá guerreiro. Sua maior luta é pela perfeição: de si mesmo, dos outros e das coisas. Odeia a preguiça, que ele considera o inimigo número um da perfeição. Da união de Oxaguiã com Iyemanjá, nasceu Ogum, orixá guerreiro como o pai. Ogum guerreia para destruir o que precisa ser renovado, enquanto Oxaguiã luta para construir o que foi destruído. Neste vai e vem de batalhas, Oxaguiã foi um dia à cidade de Ogum para buscar munição e encontrou o povo em festa. A comemoração era pelo término da construção do novo palácio do rei Ogum. Tudo parecia perfeito. Não para Oxaguiã! Ele bateu sua poderosa espada no palácio, que ruiu imediatamente. O povo ficou irado! “Tanto trabalho jogado fora, por um capricho de Oxaguiã”.
O pai de Ogum então falou: “O rei de vocês está em guerra e não voltará tão cedo. Por que entregar este palácio para ele, quando um muito melhor pode ser construído?”. Passado um tempo, Oxaguiã retornou à cidade e encontrou o palácio reconstruído. Entretanto, tudo se repetiu: O pai de Ogum destruiu o novo palácio e ordenou que o povo construísse outro, ainda mais perfeito.
Aconteceu que o dia da volta de Ogum se aproximava, só restando para Oxaguiã contentar-se com o último palácio construído, que para todos estava mais do que perfeito. De tanto reconstruírem o palácio, os moradores daquela cidade passaram a ser conhecidos como “os construtores quase perfeitos”. O povo não gostou daquele “quase” e ousou reclamar com a divindade. Oxaguiã disse: “A perfeição é como uma donzela arisca, ela se compraz em ser buscada, mas nunca permite ser encontrada e muito menos ser cultuada”.
Esse itan (estória narrada de geração para geração) fala sobre a importância da busca pela perfeição. Outro dia ouvi o seguinte comunicado: “Não basta fazer, é preciso fazer com amor”. Eu completo esse lindo comunicado, dizendo: Não basta fazer, é preciso fazer com amor, mas fazer bem feito. E ninguém faz nada bem feito se não tiver tempo. Se a preguiça é o inimigo número um da perfeição, a falta de eficiência para lidar com o tempo é o número dois. É por isso que se diz: “Quem tem tempo faz a colher e borda o cabo”.
Quem tem tempo faz arte. E a arte é uma das importantes formas de aproximação com o sagrado. Não é preciso ser artista para se fazer arte, é preciso apenas se tentar fazer as coisas da melhor maneira possível. Tanto nas coisas mais simples, como nas mais complexas; tanto nos assuntos sociais, quanto nos assuntos religiosos.
Lavar os pratos e estar atento para não deixar na pia nem um grão de arroz, de modo que a harmonia e pureza externas ajudem a harmonizar o interior de quem penetre naquele recinto, é arte. Quem me ouve ou lê o que escrevo está acostumado a ouvir a frase “estou sempre correndo atrás da perfeição”. Acontece que quanto mais eu corro atrás da perfeição, mais parece que a perfeição corre de mim. É como um gostoso jogo de “picula”, onde não tem vencido nem vencedor. E a graça consiste exatamente nisso: tentar, incansavelmente, domar essa virgem rebelde. Sim, acredito ser realmente virgem, a perfeição.
Não conheci ninguém que conseguiu casar-se com ela, apesar de não lhe faltar pretendentes. Entretanto, todos nós gostamos de crer que existem pessoas perfeitas. Gostamos de criar ídolos. Um grande risco, tanto para quem idolatra, quanto para quem é idolatrado. Parece que precisamos de ídolos para seguirmos, como se a “perfeição” (ou o axé) do outro pudesse ser por nós absorvida.
O caminho para a perfeição não é reto, ele é cheio de saliências e reentrâncias. É um caminho individual, como individual é o encontro que cada um tem com sua própria forma de construir e reconstruir seus palácios, sejam eles de areia ou de cristal.  A perfeição, como o próprio nome indica, é um movimento em direção a: alguma coisa, algum lugar, alguém… Aperfeiçoar-se é simplesmente manter-se em movimento; é buscar sempre o que lhe parece faltar a cada dia, a cada momento. E é Oxaguiã o orixá que nos auxilia a manter acesa essa chama. É Oxaguiã o orixá que estimula o progresso.

Encruzilhada - O palco da vida.

Quando se fala em encruzilhada, imediatamente surge na cabeça dos brasileiros a ideia de Exu e de “bozó”, nome pelo qual o povo gosta de designar as oferendas que o povo de candomblé faz fora do terreiro-templo. Claro que a referida divindade está, sim, ligada aos entrecruzamentos de caminhos. Mas o simbolismo da encruzilhada e, consequentemente, da cruz está presente em muitas religiões, sendo, assim, universal. O catolicismo soube enaltecer e ao mesmo tempo popularizar a imagem da cruz, mostrando Jesus sacrificando-se pela humanidade, momento em que ultrapassou seu estágio humano. A cruz, com seus quatro “braços” que apontam para os quatro pontos cardeais, é símbolo de orientação no espaço, para que a jornada humana não seja perdida.
A encruzilhada, portanto, é um lugar de pausa, um momento parado no tempo, que leva à mudança de um estágio a outro ou, simplesmente, de uma situação a outra. Quando, portanto, oferendas nas encruzilhadas são depositadas, está se pedindo inspiração para o novo caminho que se deseja trilhar. Está se pedindo a quem? A Exu, que é, na crença nos orixás, a divindade orientadora dos caminhos, responsável por mostrar a direção correta a ser tomada, tendo em vista que as dúvidas e incertezas possam, por fim, dar o descanso necessário à mente. Exu é a nossa bússola, aquele que nos protege para que não fiquemos desnorteados. Afinal, enquanto seres humanos, nós somos muito instáveis.
Em rituais celebrados pelo candomblé, a característica de instabilidade do ser humano é cantada: Pákun aboìxá; Ibà pa ràn tán axó dá ma aro; a fi dà wa rá àxé akó ma orixá; orixá wa baba alaye = Apague o fogo dos incêndios e nos proteja do aguaceiro; apague o fogo, o calor que se alastra; termine com as muitas discussões e tristezas criadas; nós somos instáveis, transforme-nos, imploramos sempre pelas suas instruções e sua doutrina, orixá. Seja nosso mestre, o dono do nosso modo de viver. Cecília Meireles, em seu poema Ou isto ou aquilo, também nos lembra dessa particularidade, que tanto desgaste dá à mente humana:
“Ou se tem chuva e não se tem sol/ ou se tem sol e não se tem chuva!// Ou se calça a luva e não se põe o anel/ ou se põe o anel e não se calça a luva!// Quem sobe nos ares não fica no chão,/ quem fica no chão não sobe nos ares.// É uma grande pena que não se possa/ estar ao mesmo tempo em dois lugares!// Ou guardo o dinheiro e não compro o doce/ ou compro o doce e gasto o dinheiro.// Ou isto ou aquilo… ou isto ou aquilo…/ e vivo escolhendo o dia inteiro!// Não sei se brinco, não sei se estudo/ se saio correndo ou fico tranquilo// Mas não consegui entender ainda/ qual é melhor, se é isto ou aquilo.”
A vida nos coloca sempre em encruzilhadas, onde somos obrigados a escolher que atitude tomar, por isto se diz que é na encruzilhada que se encontra o destino. É que as encruzilhadas, isto é, os cruzamentos de caminhos, são espaços sagrados, daí a responsabilidade que se deve ter com os rituais e, consequentemente, os pedidos feitos nestes locais. Por exemplo, é comum o hábito de se depositar oferendas para determinadas “entidades”, com o objetivo de conseguir um amor. Inocentes pessoas que, sem o conhecimento devido, não sabem que os amores assim conseguidos são passageiros, tanto que em latim a palavra encruzilhada é conhecida como trivium, significando aquilo que é trivial, que é efêmero.
Repetindo, as encruzilhadas são lugares sagrados onde se pede ajuda aos deuses para que tenhamos critérios nas escolhas feitas, a fim de não nos perdermos no caminho. São também nesses locais que pessoas que possuem o devido preparo espiritual, com muita responsabilidade e respeito, realizam rituais cuja finalidade é despachar, no sentido de expulsar, as energias negativas, que o sagrado consegue transmutar em energias positivas, para depois serem devolvidas aos homens, já livre de todas as impurezas. Pois as encruzilhadas são lugares, e momentos, de reflexão para escolha do caminho a seguir, mas também são lugares naturais para que possamos nos desvencilhar das negatividades por nós criadas ou em nós respingadas.

6+5=12 A prosperidade no candomblé.

Para quem tem como prática religiosa o culto aos orixás, o dia 6 do mês 6 foi, e continuará sendo, de extrema importância. Afinal, no profundo sistema numérico do jogo de búzios, o número 6 foi o responsável por trazer a prosperidade para a Terra. Para o povo africano, de quem herdamos uma boa parcela de nossa filosofia de vida, ser próspero é uma obrigação. Por isso, nessa data, o “povo de santo” fica todo ouriçado: põe suas melhores joias, sai para fazer compras e faz oferendas. Tudo para atrair prosperidade. O alcance dessa graça é um dos maiores desejos do ser humano. Mas quem é essa tão desejada prosperidade?…
Diferente do que normalmente se costuma pensar, a filosofia yorubá não relaciona prosperidade, apenas, a dinheiro. A referida palavra quer indicar uma reunião de circunstâncias que precisam ser buscadas, para que se vá alcançando, continuamente, um estado mais elevado do ser, em seus diferentes aspectos: físico, emocional, social, espiritual e, é claro, financeiro. Até mesmo porque de nada adianta se ter muito dinheiro sem a tranquilidade necessária para saber usá-lo com sabedoria.
Quando elevamos nossos pensamentos aos orixás, dizemos: Olu wá mi, fún mi ni ekun fún mi ni owo = Venha meu senhor e me traga força pura para que eu possa ter dinheiro. Força pura é o axé que permite que os obstáculos sejam vencidos. É um grande risco, então, pedir dinheiro aos deuses, sem que se tenha antes pedido e alcançado o axé necessário para que ele seja um aliado e não um inimigo. Dinheiro, sexo e poder são como “faca de dois gumes”: tanto podem levar à ascensão como ao fracasso.
Este artigo é fruto da vivência que tive com dois filhos meus. Um pela empolgação e outro pela curiosidade demonstraram interesse de conhecer mais profundamente, e de acordo com a tradição que os guia, um tema a que outras tradições também se dedicam com afinco – a prosperidade, que na cultura yorubá é simbolizada pelo número seis. É através da leitura dos números que esse povo e seus descendentes encontram soluções para as dificuldades diárias. Os números falam e os mitos nos ajudam a entender o que eles dizem. Sem o conhecimento das histórias míticas nunca entenderíamos o porquê de ser dito: 6 + 12 = 5:
O número 6 e o número 12 surgiram de um bloco de ouro. Eles se apaixonaram, perdidamente. Dessa união nasceu Ajé – orixá símbolo da riqueza –, irmã de Yemanja – a dona da pérola e de outras pedras preciosas, orixá que tem no número 5 uma de suas formas de se comunicar. Do número seis, portanto, nasceram a riqueza e o costume de usar joias; mas também com ele vieram a vaidade e o orgulho, que podem levar à destruição de tudo que se conquistou. Esse número lembra-nos que o destino das criaturas é a prosperidade e que a humildade é uma das condições fundamentais para a aquisição desta graça.
O número 6 nos conta, através de um de seus mitos:
Todos os anos, Olorum fazia uma festa e convidava os números 1 a 16, a fim de que eles prestassem conta de seus atos na Terra. Encerrada a reunião, todos eram presenteados de acordo com o valor de seus méritos. Naquele ano, porém, a Divindade Suprema resolveu que daria um presente igual para todos. O número 6 era muito pobre e por isto seus irmãos foram até sua casa, antes da festa, para almoçar. A real intenção era humilhar o dono da casa, que mal tinha como alimentar sua própria família. Seis deu tudo que tinha guardado para a alimentação do mês. Nem assim deixou de sofrer gozação. Já cansado de tanta humilhação, ele desistiu de ir à tal reunião. Olorum sentiu sua falta, mas nada comentou.  No final da festa, os números, de 1 a 16 (menos 6), receberam uma abóbora. Todos ficaram revoltados com um presente tão simples e despejaram todas as abóboras na casa de 6. Eles só não sabiam que os frutos estavam recheados com ouro e joias. No ano seguinte, todos se surpreenderam ao ver que o mais pobre dos irmãos era agora muito rico. Olorum, então, disse-lhes: Vocês todos têm riqueza, mas 6 tem prosperidade.

Consulta ao Oráculo e o Ritmo do Candomblé

O destino das pessoas e tudo o que existe podem ser desvendados por meio da consulta a Ifá, o oráculo, que se manifesta pelo jogo. Ifá tem seu culto específico e o mais alto cargo do culto de Ifá é o de oluô, título concedido a alguns babalaôs. Ifá é o orixá da advinhação e para tudo ele deve ser consultado. Existem dois tipos de jogo: o do opelê-Ifá e o jogo de búzios.
No jogo de búzios, mais comum, quem fala é Exu. São dezesseis búzios que podem ser jogados também pelos babalorixás e ialorixás. A consulta a Ifá é uma atividade exclusivamente masculina, mas as mulheres passaram a poder pegar nos búzios porque Oxum fez um trato com Exu, conseguindo dele permissão para jogar. Tanto o jogo de búzios como o do opelê-Ifá baseiam-se num sistema matemático, em que se estabelecem 256 combinações resultantes da multiplicação dos 16 Odus uasdos no jogo de búzios por 16. Nada se faz sem que antes se consulte o oráculo. Quanto mais séria a questão a serm reslovida, maior a responsabilidade da pessoa que faz o jogo.
As obrigações do Odu, ou ano ritual, são muito importantes para uma casa. é dali que cada pessoa e a própria casa retiram a força necessária para continuar existindo. As oferendas representam uma troca constante de axé. Muitos detalhes precisam ser pensados para que os preceitos sejam cumpridos à risca. Por isso, antes do início do Odu, é indispensável que se faça um jogo para saber exatamente como devem ser realizadas as obrigações.
No Brasil, o ano ritual varia muito de uma casa para outra, mas em todas elas as obrigações começam com as “Águas de Oxalá”. Como nem sempre essa obrigação é feita no início do ano, é necessário que se faça anualmente o jogo para saber qual o Odu que irá reger o ano. A partir do conhecimento do Odu, o oluô prescreve os ebós necessários às pessoas para que elas atravessem com sucesso o ano novo que se inicia. A partir do conhecimento dos Orixás que regem o ano, outros jogos são feitos para estabelecer as obrigações que a casa deve cumprir durante aquele ano: fica-se, então, sabendo como deverão ser homenageados os orixás, o que lhes será oferecidpo, quando etc.
Além dos jogos feitos para a casa como um todo, são feitos também jogos individuais que indicam feituras, boris e toda a sorte de obrigações individuais que devem ser feitas para os filhos da casa. Uma vez estabelecido o calendário do ano, têm início as obrigações. As obrigações do Dum são compostas por momentos bem definidos.
A primeira parte de todas as obrigações se constitui de ritos preliminares, em que as pessoas e a casa são preparadas para a realização daquela obrigação. Antes do início de qualquer obrigação, todos os membros do egbé presentes tomam banhos com ervas adequadas à obrigação que irá se iniciar. O banho prepara o corpo. Sem tomar banho não se pode participar de nada. Esse é um dos muitos exemplos da importância de Ossaim, o dono das folhas. Sem folha nada se faz.
A partir de então, tem início a obrigação propriamente dita, que se compõe de cinco partes: a matança, o padê, o ianlê, a festa e a entrega do carrego, tudo de acordo com o jogo feito para o Odu, assim como pelo jogo feito antes da realização de cada obrigação e mesmo para cada etapa de uma mesma obrigação.