quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Como ser indiferente diante de tanta benevolência?

Hoje meu “axé” é escrito com letra maiúscula.


Escrito com letra maiúscula pois, mais do que nunca, quero determinar a energia e o significado dessa palavra em meu íntimo.
Axé é força vital, energia, princípio da vida, força sagrada dos orixás. Axé é benção, cumprimento, votos de boa-sorte e sinônimo de Amém. Axé é poder. (…)Axé é carisma; é sabedoria nas coisas-do-santo, é senioridade. Axé se tem, se usa, se gasta, se repõe, se acumula. Axé é origem, é a raiz que vem dos antepassados (…).  Axé se ganha e se perde. (…) é ter legitimidade junto ao povo-de-santo. Reginaldo Prandi – Trechos retirado do livro “Xirê! O modo de crer e de viver no Candomblé” de Rita Amaral.
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Há muitos anos atrás, numa época em que eu trabalhava mediunicamente em um terreiro e que, claro, nem pensava em ter um terreiro, ouvi meu Pai Espiritual falar como era difícil ser “Pai de Santo”. Nesse momento aconteceu uma breve contestação de alguns médiuns que diziam que os Pais é que agiam de forma indiferente em relação aos seus filhos, que agiam de forma desleixada e até dura. Afirmavam que muitos Pais não se importavam, não se interessavam, não se empenhavam em favor dos médiuns, consequentemente, eram eles mesmo os maiores culpados pelas ‘dificuldades’ mencionadas.
Meu Pai Espiritual respirou fundo e disse algo como: “vocês não sabem o que é viver anos dando tudo de si, tentando fazer o melhor, ensinando, falando, lidando com demandas, com o que há de mais negativo nas pessoas, nos filhos espirituais, nos médiuns e esses, por qualquer coisa, por qualquer proposta, por qualquer “não”, por qualquer motivo, vão embora sem se preocupar, sem pensar no grupo, como se nada fosse importante. Vocês não sabem o que é ver, anos a fio, filhos deixarem o Terreiro convictos que nada de importante estão deixando para trás…” e no final ainda complementou: “não julguem, vocês não sabem o que é sentir ingratidão, o que é sentir dor, o que é sentir-se usado…”. Acredito que não preciso dizer que todos ficaram calados e eu, mais do que calada, fiquei emocionada e pensativa.
Com o tempo, abri as portas da Umbanda Carismática com as bençãos de meu Pai Espiritual, pois o mesmo já me considerava preparada para tal responsabilidade, e ‘axé’ se tornou minha determinação diária, afinal só com muita benção, sabedoria, serenidade, força, energia para lidar com tantas coisas, tantas pessoas, tantas situações e tantas ingratidões. Aliás, com o tempo nós, Mães e Pais Espirituais, vamos nos acostumando, vamos tentando compreender e nos moldando às várias situações, principalmente com a saída dos médiuns. Com o tempo, vamos ficando mais resistentes diante das nossas próprias dores e começamos a usar frases do tipo ‘deixa pra lá’, ‘na Umbanda é assim mesmo, médiuns vêm, médiuns vão’, ‘não era o momento’…
No entanto, tem uma dor que particularmente ainda não consegui aceitar ou me acostumar: é a DOR DE UM GUIA quando vê seu filho saindo do terreiro, é a DOR DE UM GUIA CHEFE quando vê seus filhos saindo do Terreiro, deixando o grupo, deixando “seus” próprios Guias sem condição de trabalho, deixando de lado o compromisso com a assistência entre tantas outras coisas.
Não sei como explicar essa sensação, mas sei que dói, sei que bate fundo, sei que me coloca numa profunda reflexão sobre minhas ações e sobre minhas responsabilidades.
Quem já sentiu, ouviu ou presenciou um Guia rezando por seu filho ou por seus filhos, pedindo a Oxalá que Ele, o Guia, absorva todo o sentido e sentimento de dor daquele filho ou filhos para que assim, estando ele(s) mais confortado(s), não desista(m) de sua(s) missão(ões) como médium(s) e não deixe(m) o Terreiro onde trabalham juntos, sabe o que estou querendo dizer.
Aliás, sentindo, ouvindo e entendendo essa reza NÃO ME DOU O DIREITO DE SENTIR DOR, mesmo porque só acarretaria mais dor ao Guia. Mas sentindo, ouvindo e entendendo essa reza, me ajoelho e clamo a Olorun para que abra o coração daqueles que deixaram de lado seus terreiros, que deixaram de lado seus Guias, que deixaram de lado seus compromissos espirituais. Clamo a Olorun que os tornem mais humildes e que deixem de lado o individualismo. Clamo a Olorun que os façam sentir novamente o quanto são importantes e o quanto suas decisões interferem diretamente na vida de muitos. Clamo a Olorun que continue abençoando e dando muita força aos Guias, pois não é fácil lidar com tanta insensibilidade.
Desculpem, mas depois de muito aprender e caminhar, não nego a saída de um médium, mas não posso deixar de afirmar, com total convicção, que trabalhar a espiritualidade não é uma brincadeira de gente grande, não é qualquer coisa que pode acontecer de qualquer jeito e em qualquer lugar.
Portanto, não consigo me tranquilizar, não consigo  serenar meu coração, não consigo ser passiva ao ver e ao saber da enorme benevolência e bondade dos Guias Espirituais enquanto alguns médiuns são totalmente indiferentes, cegos e surdos por tais sentimentos.
Sei que muitos médiuns estão pensando ‘não é bem assim, meu Guia sabe por que saí do terreiro, ele até concordou…’, ou pensando algo parecido como: ‘saí só por um tempo…’, ‘saí, mas o Guia continua me acompanhando e me ajudando…’, sei que muitas justificativas surgem quando falamos sobre isso, mas nenhuma, NENHUMA responde à atitude de indiferença daquele médium ao sair do terreiro.
Reflitam, percebam e constatem comigo: sempre existe um sentido de “indiferença” quando um médium sai de um terreiro, seja ela pelo grupo, pelo Guia, pela Mãe/Pai, pela assistência ou pela missão mediúnica. E buscando no dicionário Aurélio o significado da palavra ‘indiferença’ encontrei como definição: desinteresse; desprendimento; desdém; desprezo; apatia; insensibilidade; negligência. Com essa constatação fico pensando o que leva um médium pedir a benção, ‘bater cabeça’, usufruir de alguém ou algo, se propor a uma coisa que no íntimo não tem interesse, é insensível, que despreza, que negligencia, enfim, que é indiferente? Ufa…
Só com muito AXÉ para entender tudo isso.
Só com muita ajuda da ancestralidade para sustentar tudo isso.
Só com Ogum e por Ogum para acreditar que um dia vivenciaremos a plenitude da Paz de Espírito.
Só com muito AXÉ, REZA, BENEVOLÊNCIA e BONDADE para entender tanta Indiferença.

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